Discurso da Paraninfa – Medicina Turma 245ª UFBA

Cumprimento a todos, familiares, colegas professores, na pessoa do Ilustre Diretor desta centenária casa, Dr. Luiz Fernando Adan, cumprimento os formandos da ducentésima quadragésima quinta turma da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia!

Estou muito feliz! Lembro de vocês ao início do curso, lembro das expressões faciais de semestre a semestre, tal como já conversamos na Aula da Saudade. E é encantador o sorriso dos meninos e meninas aprovados em medicina, é belíssimo o caminhar diante das novas vivências, encontros com docentes, pacientes e serviços. É interessantíssimo assistir aos receios “pré” internato e ao alívio quando dizem “cheguei lá”! Antes disso, é muito divertido ver seus rostinhos nas festas que vocês promovem e intitulam com “percentuais médicos”, que na verdade não existem. Mas existem nos sentimentos de felicidade e conquistas de passo a passo.

Certa feita conceituei estudante de medicina, em uma aula que ministrei ao 4º semestre do curso. Perguntei: “O que são estudantes de medicina?” E respondi: “São pessoas não-médicas que cursam graduação em medicina, sentem-se “quase-médicos” em percentuais diversos, inclusive meio-médicos, mas NÃO SÃO MÉDICOS, e NÃO PODEM FAZER USO DE DOCUMENTOS MÉDICOS”. E agora vocês podem! São médicos, 100% e inteiramente médicos!!! E farão uso ético, com certeza!

Eu convido a todos para uma reflexão: Qual terá sido o melhor dia, o primeiro ou o último? Lembram-se do primeiro jaleco? Da primeira cerimônia? Dos sorrisos chorosos de orgulho e felicidade dos seus pais, avós, amores, lembram do cheirinho de jaleco novo que com todo o cuidado vocês mal sabiam como dobrar? E o que seria do lindo começo não fossem os fins e todos os outros lindos recomeços da vida?

Eu, ainda neste ano, vivi um momento de aprendizado que gostaria muito de compartilhar. Veio de um Ilustre Professor, um sábio, doce e curioso homem, com quem continuo a aprender lições em busca de, um dia, ser uma Professora daquele mesmo tamanho.

Era inverno, beira-mar, o sol apontava, brando, e a brisa tocava, macia, o rosto dos que ali escutavam, com atenção, o silêncio da manhã. Ele, grande psiquiatra e pensador humanístico das questões da vida, concentrado em seu quebra-cabeças de mil peças, radiante, embora com feição recrudescida pela preocupação momentânea em completar o céu de sua imagem, interrompe o silêncio, pausadamente, e direciona, a mim, uma pergunta astuta:

– Minha cara, qual a peça mais importante: a primeira ou a última?

Eis que, com a pressa de quem responde a partir dos primeiros sentimentos que, legitimamente, brotam, eu disse:

– A última, porque traz a satisfação de completude e sensação de tarefa cumprida!

Não sabia eu, contudo, que havia feito uma escolha irresponsável tendo em vista a dádiva da vida e a lindeza de seus riquíssimos caminhos, aprendizados e buscas…

– A última?! – disse ele. Você escolheu o fim! A última é quando acaba e não há mais nada a fazer. Já a primeira é o começo de tudo, de um longo caminho que demora a passar.

De fato! Ô mania de buscar o término das atividades, de caçar as conclusões, de desejar os bem-fazeres prontos. Não sabendo eu que a graça está justamente no durante! Hei de aprender que a graça está em não saber “como” e “quando” estará pronto o quebra-cabeças da vida.

Resignada, aos pouquinhos, fui observando pequenos gestos e detalhes daquele instante rico. E fiz silêncio.

Pude perceber que ninguém sabe se uma peça do quebra-cabeças da vida irá se perder no meio do caminho, causando um eterno sentimento de ausência. Porque as peças de um quebra-cabeças podem se perder.

E as peças perdidas são mesmo as lacunas da vida, as ditas falhas, os buracos que, por mais que queiramos, nunca serão verdadeiramente tamponados, mas isso não é, de todo, ruim! Ao menos continua-se em busca de algo, ou providencia-se. Não se sabe, também, se todas as peças de um céu – tal como o céu da imagem que ele pretendia preencher – serão encaixadas nos exatos tons de azul, ou de branco, quando presentes as nuvens leves. Mas talvez não importe, já que pareceriam apenas pontos próprios de uma chuva que logo passa, é percebida, e sai do lugar. E o mais interessante é que não se sabe se, enquanto se aprecia a imagem que é montada, o maior tempo será preenchido com a maravilha do sorriso diante da peça encontrada, ou com a sisudez da busca pela peça querida, escondida entre centenas, como quem pirraça. E, de repente, ele diz, novamente quebrando o silêncio que se havia refeito:

– A peça tem o tempo dela.

E eu, entusiasmada, perguntei:

– Quando some? E aquela que você procurava, onde estava?

– Sim. Estava por aqui, entre as outras. Esqueci dela, por um tempo, e ela apareceu!

Há momentos, meus amigos, em que não adianta procurar tanto por algo. O importante é termos a certeza sobre o que procuramos, desejamos, buscamos. Por vezes, cada parte é encontrada quando quer. E não adianta insistir. De fato. E, mais uma vez, ele tinha razão. A peça tem o tempo dela. Vocês têm o tempo de vocês. Não se comparem a ninguém, nem mesmo às pessoas que admiram. Porque elas têm o tempo delas e vocês têm o tempo de vocês. Aqui, neste momento, vocês simbolizam um todo. Um grupo de excelentes pessoas que a sociedade irá reconhecer como médicos, como portadores de jalecos brancos, e sobre vocês a sociedade criará expectativas. Mas as expectativas são da sociedade, e as alegrias e durezas dos caminhos percorridos são seus. Mas, o momento do encontro, é único. Do encontro entre vocês e a sociedade. Entre vocês e seus pacientes.

Por isso, sempre deverão respeitar aqueles que procuram por vocês para que, com isso, tentem preencher tudo o que lhes falta, ainda que nem sempre seja possível. Inclusive saúde, a resolutividade de uma dor, ou o diálogo terno sobre o encontro ou o desencontro de um amor. Voltando às nossas peças do quebra-cabeça, eu diria, com o aprendizado que recebi, que são “partes” de um “todo” que, apesar disso, talvez se pensem como um “todo” em si mesmas, e recriem o seu próprio tempo, espaço e forma. Criem os seus próprios tempos, espaços e formas! Sejam firmes como Nise da Silveira, que revolucionou seu tempo, criou novos espaços e nos mostrou formas diversas de tratar pessoas claramente discriminadas pela sociedade. Respeitem as dignidades das pessoas e respeitem as dignidades de vocês!

Sejam autônomos em suas decisões e respeitem a autonomia das decisões de seus pacientes! Isto significa respeitar a autonomia das partes, que aparece quando se reconhecem indispensáveis. E, de fato, são. Um quebra-cabeças faltando uma peça reconhece aquela peça como indispensável à sua completude! Vocês nos farão muita falta aqui, na Universidade, em nosso quebra-cabeças. E farão imensa alegria a todos os pacientes que encontrarão, lá fora. E que alegria, a nossa, a de termos contribuído para a formação deste tsunami de pessoas queridas!

Por coincidência li, há pouco, um livro singelo, curto e complexo, que trata desta mesma questão, intitulado “A parte que falta encontra o grande O”. No entanto, na história, a parte que falta não fazia a mínima ideia que tinha a capacidade de reconhecer-se autônoma, inteira, capaz de arredondar suas próprias pontas e passar a rolar sem que, para isso, precisasse estar à espera de alguém que a levasse a algum lugar. Vejo que, de algum modo, isso se aprende, com o tempo. O tempo da parte. E vocês, agora, são as partes do todo que vão, agora, arredondar as suas pontas, reconhecerem-se autônomas e inteiras. E passarão a rolar sem que, para isso, precisem estar à espera de alguém que leve vocês a algum lugar. Porque vocês farão os seus próprios caminhos.

E esse momento, essa colação de grau, pode ser, portanto, reconhecido como o começo ou o fim. O fim da graduação ou o começo de uma grande vida de mãos dadas com a medicina. Ou recomeço, agora com uma força ainda maior. Porque todos vocês agora sabem que todas as partes são indispensáveis. E, da mesma maneira, sabem que são partes prontas a começar ou a recomeçar o que pretendem montar e remontar durante toda uma vida.

Muito obrigada pelo convite, recebi a carta de vocês com muito amor para ser a Paraninfa desta turma!

Parabéns aos familiares, parabéns aos professores, parabéns a vocês!

Sigam firmes! Sempre em frente!

Obrigada!

 

Camila Vasconcelos
(Professora de Bioética DMPS-FMB-UFBA e Advogada em Direito Médico)

 

 

*Alguns trechos deste discurso foram adaptados de texto anteriormente publicado no Jornal Tribuna da Bahia, impresso, em 13 de julho de 2019, pg. 10 com o título “A primeira ou a última?”.

 

 

 

 

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